10 maio 2008

Não consigo. Tentei mas não consigo. Os pensamentos vêm numa velocidade incrível e eu não sou capaz de abarcá-los todos. Pense num mar bravio. Me sinto dentro dele. São ventos de todos os lados, as ondas crescem cada vez mais. Os peixes olham pra mim e balançam as barbatanas mais rapidamente pra que a água se faça ainda mais agitada. As ondas são meus pensamentos. É como se eu estivesse dentro do mim e todas elas viessem em minha direção. Não há como desviar delas pois se estendem por toda a orla e me encurralam. Só há uma opção: sair do mar.

Isso eu não faço.

Eu tento desviar mas não há possibilidade. Se eu mergulho, as águas me atingirão do mesmo jeito. Só que meus olhos estarão fechados, e eu perderei a beleza mansa após o choque. Se eu pulo (e elas não parecem ser pequenas a ponto de me deixar pulá-las) elas me atingirão novamente pois cairei sobre as suas águas já passadas, acumuladas por tantas milhas. Só que, diferentemente do primeiro caso, o encontro jaz morto. E não há mansidão. Apenas ilusão. Decido por enfrentá-las. Cara a cara. De peito aberto, mesmo que doa. Há um receio incontido, mas acho que é a decisão mais correta, pois se pode fugir dos próprios pensamentos?

Pra se ter uma idéia de como são numerosas e diversas, nesse momento me vêm três ondas que lembram de coisas diferentes e produzirão calmaria igualmente diferente. Lembro de Hegel. Lembro de uma calça com estampa xadrez verde. Lembro também que existe o número sete.

São muitas ondas e os ventos sopram mais fortes. Não me dão trégua. Parecem gostar de me ver quase afogado em mim mesmo. Tudo vem à tona.

Já estou num momento em que a bravura das águas atinge o fundo do oceano e remove as areias e algas, antes, solenes. Operísticas. Imagens são evocadas, palavras em gritos, rudezas da dor.

Coragem não há mais. Não posso lutar contra tantas forças. Já não sou mais solidário comigo mesmo. Quanto mais me afogo mais quero afogar-me. Há um certo masoquismo e, por que não?, um certo martírio em me fazer maior que mim.

É tudo. É tudo que vem e dança na minha frente. Eu me apresento. Me vejo como uma marionete, um ventríloquo sentado em seu próprio colo. É uma confluência de tudo se querer fazer, de se querer chocar com todas as ondas. Querer que elas se intensifiquem, e que a brisa em furacão se transforme. É um gosto salgado em minha boca, pois a água já alcança certa altura , mas me mantenho tão denso que já não posso afogar-me.

Já não tenho mais direção e nem sentindo a oferecer-me.

Já sigo sem saber pra onde nem porquê. Já passo pelas flores e contemplo sua beleza mesmo que elas estejam mortas e tórridas pelo calor. Já aprecio o canto dos pássaros mais negros e graves como se alcançassem o acorde mais agudo. Já olho pros ursos, pelados, e me encanto com o brilho de seu pêlo macio e suave.

Já canto desafinando para afinar.

Já como pensando em regurgitar. Já me comungo pensando no embrulho que causarei ao meu estômago.

E eles continuam a chegar. São como girassóis que não se esquecem de se prostrar à luz um só minuto. Eles me olham e eu penso que devo transformá-los em cinética, em movimento, em ação. Devo dar-lhes uma função que não me torturar. Penso e...(!)

Acabou.

Fiz aquilo que não podia mais fazer.

Devo parar de fazê-lo. Devo inanimar-me pois a corrente da vida já não me é confortável. Devo anestesiar-me antes de anestesiá-la. Devo torturar-me antes de causar o outono. Ou, pior, antes de invernar a todos. Devo esfriar-me só. Congelar-me só

Cristalizar esse mar bravio o qual se mostra a única solução. Terminar-me, implodir-me, porque se me estouro faço-me muito alarde. Devo tentar parar com uma obsessão. Devo tentar parar com todas as obsessões. Ou devo obcecar-me?

Não devo mais procurar respostas. Não devo mais buscá-las pois só me fazem trazer novas duvidas. Só me fazem despir-me e envergonhar-me. Só me fazem mergulhar nessa água, agora escura, manchada pelas minhas vergonhas, pela lama revirada das suas profundezas. Só me fazem não afogar-me, como antes, mas detestar-me. Afogava-me porque amava-me e confortava-me. Agora prefiro as praias às suas águas imundas e asquerosas. Prefiro fugir de mim mesmo a olhar pros meus mais frondosos horrores. A areia também não é mais branca. A areia deixara de ser areia e passou a ser lama. Posteriormente, pântano. É agora movediça. Já me puxa para si me fazendo doer-me. Já me arranha com seus grãos tentando tragar-me. Já me macula com seu esforço. Já me tenta a sufocar-me.

E então, meu coração se rasga rarefeito e sangra.

Olho.

Olho.

Olho.

E vejo. Vejo o vermelho. Vejo o rubro. Vejo uma cor/dor. A cor da dor e a dor da cor. Enxergo as possibilidades de glória. Decido por não mais cristalizar-me. Decido, pois por liquefazer-me e se possível por sublimar-me. Decido por tornar-me etéreo e naftalínico todo eu. Decido por espaçar-me, por alargar-me. Posso agora explodir como um balão, inflado de si.

O processo, mais uma vez, é de dor. E de dor.

Desejo por transformar toda a areia, movediça e contaminada. Desejo voltar ao seu estado mais que natural. Desejo que não sejas mais um simples branco como era antes, mas um branco mais titânico possível. Desejo por tocar-me sem medo de repúdio.

Decido por limpar, grão por grão, minhas lembranças. Decido ver-me inocente, assim, como um louco. Decido por orgulhar-me de mim.

Decido guerrear comigo, sem armaduras ou armas. Somente com olhares. Somente com sinceridade. Dispo-me, até.

No meio da caminhada em direção à luta o medo me toma e decido voltar.

Poeira.

Decido continuar. Tropeço e olho pra trás.

Poeira.

Levanto e sigo. Hesito uma última vez: me volto.

Poeira.

Já não há mais volta. A partir do momento que se decide por enfrentar-se, decide-se por não prostrar-se. Decide por seguir até o fim.

Olho-me. Vejo-me... E descubro não ser quem era. Descubro que destruído é o mural de minhas certezas. Descubro por arruinado os meus favores. Descubro não solidário o meu dever. Procuro, errante, por um vestígio de mim. Arrasto-me tropegamente, em saber de mim. Descubro-me. Retiro de sobre mim o lençol que me engana. Limpo-me de ilusões passadas. Rasgo o meu retrato, que por anos pintei detalhadamente, e decido por começar outro.

Mas será este abstrato. Não procuro por definir-me.

Começo a colori-lo com a angústia de ter derrubado às pressas o meu forte.