29 abril 2006

Fabulinha

"Ana pranteava compulsivamente. Suas pupilas estavam dilatadas por tal volume de lágrimas. Ela sabia, desde pequena, que era uma princesa e esperaria anciosamente pelo seu príncipe encantado. Os contos de fadas partilhados durante a infância deram asas à imaginação e, quando criança, sabia que um dia seria uma grande rainha e viveria feliz para sempre num grande e bonito castelo.
O príncipe apareceu, e ele não era encantado. Era humano, de carne e osso, como todos nós, mas, assim mesmo, o coração de Ana batia forte cada vez que fitava-o. Um dia se conheceram e passaram a conviver juntos. Não eram nem Eduardo e nem Mônica. Os gostos se pareciam, os ensejos eram os mesmos e gostavam de compartilhar de seus fatos. O amor os conheceu.
O tempo passava e a paixão de Ana pelo seu príncipe era cada vez mais intensa. Viver ao seu lado era tudo que queria. Até o dia que descobriu que seu amado não era somente desencantado. Ele também não era príncipe. Seus defeitos foram se evidenciando e Ana viu-se perdida. Tudo aquilo que lhe disseram enquato era criança e adolescente era mentira. A vida era uma grande farsa e ela fora enganada. A paixão era um sentimento irrelevante num mundo onde o ódio reina sobre todos.
Ana não se encontrava. Daquele conto de fadas que se passava num grande castelo, viu-se expulsa e lançada à Floresta Negra vestindo somente alguns trapos velhos. Haveria de ter um final, e Ana sabia qual seria. Nós também sabemos."

Sonhar é pensar grande
É viver sem limites
Sonhe intensamente
Mas sonhe com os pés no chão
Sonhe sabendo que aquilo tudo é apenas um sonho.
Não se iluda com as ficções, as utopias
Não viva em um mundo de projetos irrealizáveis

Saiba que sonhar é preciso, pois devemos manter nossos olhos acima da linha do horizonte, mas paralelos ao firmamento. Quando olho muito pra cima eu tenho vertigem. E isso não é legal!

21 abril 2006

Tratado do bem comum

Não quero lhe falar daquilo que um dia viverei
Quero lhe dizer o que tenho visto,
O que tenho sentido e o que tenho vivido
Quero lhe falar das vezes que passo
Nas ruas, avenidas, estradas, becos, passeios, e espaços
Quero lhe mostrar a sórdida vida de um desfavorecido
Quero que saibas sobre o que tem acontecido
Fora da nossa grande redoma de vidro
Quero que vejas aquilo que a ti pertence
Aquilo que a mim pertence
Que nos pertence

Quero que tenhas acesso ao bem comum

O bem comum que vemos nos périódicos todos os dias
O bem comum que nos atormenta toda manhã
O bem comum incrustado nos loci cosmopolitas
O bem comum visto de cima

Eis que lhe digo que o bem comum
É um mal comum e com um
Aquele mal que fazemos a um, fazemos a todos
Aquela falta de expressão, de comoção,
De oralidade e visualisação
Que transmitimos a apenas um,
Contagia a todos
O mal que fazemos com um,
É comum aos outros

A indiferença de um olhar ao sofrimento de um semelhante
A crueldade do vazio frente à calamidade
A mudez de um grito altamente sonoro

É essa a nossa herança
Essa é a nossa vitória
Esse é o nosso ganho

Isto é o bem comum
Aquilo que todos construimos
E só a nós ele pertence
...

07 abril 2006

Infância...

Os brinquedos jogados no chão
As peças de Lego espalhadas
Pela varanda
Os carrinhos colecionados
Os bonecos quebrados

São lembraças

Lembranças de um momento
De uma infância
De uma criança

Felizmente posso dizer
Que foi uma boa infância
Bem aproveitada
Brincada
Apimentada

Quem disse que não posso voltar ao passado?

Quando fecho os olhos
Ainda vivo essa criança
Posso sentir o cheiro da folha de goiabeira,
A dor dos joelhos ralados
E ouvir os gritos de um gol marcado.

Ainda sinto o vento batendo em meu rosto
Com a velocidade atingida pelos patins
Ainda tenho a frustação de não saber andar
De patinete

Ainda lembro do
"Alerta colorida, 1 2 3!"
Do pique-bandeira
Do pique-esconde
Do pique-pega
E dos piques que dava
Quando minha mãe me chamava

Ainda volto ao passado
Pra saber que um dia
Eu vivi num mundo perfeito
...