12 outubro 2008

Minha garganta anda péssima. Xarope não resolve. Frio, chuva, sol, calor. Eu tentei buscar ajuda. Li Hegel por esses dias. Belo nartural versus belo artístico. Cortei a tomada do ventilador também. Tava com mau-contato e agora ligo direto no fio desemcapado. Oitenta centavos sobre a mesa é no mínimo estranho, já que... Lembrei do xarope. Acho que tenho que tomar novamente. É de três em três horas. Isso é esquisito. Se eu durmo oito horas por dia, acordo pelo menos duas vezes durante a noite. Uma vez por dia tá bom. Xarope não resolve. Mas tem um gosto bom: mel-limão-agrião-guapo-mato-sem-cachorro.

(Caroll, juro que não tentei te imitar. Mas não deu.)

06 outubro 2008

Eu nunca entendo o que escrevo. Não que eu nunca entenda, mas nunca concordo. Sempre que escrevo algo e depois leio o que escrevi acho que num disse nada. Acho sempre que poderia ter escrito mais, desenvolvido mais, transcendido mais, derramado mais. Sempre mais. E mais. No meu caso nunca é menos. Sempre acho que deve ser mais porque nunca estou satisfeito com aquilo que produzo. Nesse momento, a escrita é uma insistência. Insisto nesse meio porque tenho a necessidade de me fazer entendível. Mas quero me fazer entendível no momento que sou indizível. No momento que não me localizo, não me encontro. Já é tudo uma grande metalinguagem. Já uso a escrita porque preciso entendê-la. Preciso usar isso aqui e descobri suas inúmeras facetas. Confesso que a empolgação continua, estou me sentindo mais confortável, e isso não é lá muito normal. Do pouco que me conheço, sei que minha motivação dura pouco. Muito pouco. Mas, como já disse, isso aqui é uma insistência, pois sempre tenho uma barreira. Sei que se transpassá-la, isso passará de insistência à necessidade primeira. Por enquanto tá dando certo, mas sei que haverá um momento de crise. Ainda estou me disciplinando. Dói, machuca e sara ao mesmo tempo. Tem um masoquismo nisso tudo. Mas acho que o prazer ao final é muito menos intenso. É antes um alívio e uma descoberta. Ainda não é sublime no sentido de que é um risco iminente e fatal. Por enquanto me arrisco no belo, na contemplação e na segurança. Mas tenho perspectivas de sublimar-me. Aguardo o momento. Espero que a coragem chegue em breve.

02 outubro 2008

Acho que estou começando a levar a sério essa coisa de escrever.
Creio que, pra mim, isso começa a se tornar uma certa necessidade.
E eu acho que eu tenho que tomar uma atitude. Devo receber isso e continuar escrevendo, pois é nas letras que me conforto, ou devo abandonar esse ofício, uma vez que isso me dói? Isso não é fácil. A decisão não é fácil.
Mais que isso. A dor não é fácil. Há momentos em que sinto que quase vomitarei as letras. Mesmo assim a mão treme, os pensamentos não correm, a caneta falha. Uma série de desventuras que me colocam numa posição tão inferior a mim mesmo que por vezes desisti de escrever. É. Fui covarde diante do meu desejo. Não o cumpri. E não tenho vergonha disso.
Mas você não tem idéia da dor. Parece que é um pedaço de mim que se vai. Não escrever, quando se deve escrever, é como a castração. Acabam-se sonhos, cores, luzes. Tudo acaba. Nada mais resta. Há um momento em que se sabe que as letras foram embora porque estavam cansadas de esperar. Ah... Eis o ápice do sofrimento. Elas são impiedosas, sim. Se não as põe pra fora, elas vão embora e nunca mais voltam. Eu disse nunca mais. Nunca mais! Compreende isso? Nós não temos capacidade intelectual pra compreender as idéias de nunca, sempre, eterno, infinito. Nossa mente não foi criada pra lidar com a permanência. Achamos que tudo pode sempre mudar. Não importa se é pra melhor ou pra pior. Tudo vai mudar um dia.
Toda vez é isso. Eu levo sempre um susto. Vou escrevendo, escrevendo, escrevendo. Quando vejo já tenho dois parágrafos. Aí fico com vergonha porque nunca sei como terminar.
A verdade é que nunca termina. É isso. Assim que termina.
Até breve!

27 setembro 2008

Hoje eu estou cansado. Muito.
Faz muito tempo que não escrevo. Hoje faz muito tempo que não escrevo.
Sou um ex-critor.
Hoje eu percebo que só me encontro nas letras.
E, apesar do cansaço e da dificuldade de concatenar as idéias, entendo que, como há muito não escrevo e só me encontro nas palavras, ou melhor, nas letras, pois formo novas palavras, não me encontro. Simples assim. Não me encontro porque há muito não escrevo e não o contrário. Se dinheiro, coisa tão valorizada, não se encontra por acaso, que dirá a alma. Não se encontra a alma por acaso, só quando se quer encontrar. E, sejamos sinceros, sem facilidade. Não se encontra. Definitivamente, não!
Conclusão: não se encontra a alma com facilidade. Principalmente quando não se procura. Como eu, por exemplo, que há muito não escrevo (essas quatro palavras já foram escritas na mesma ordem três vezes. Fato. Portanto, a partir de agora, passarei a grafá-las juntas, com hífen, pois passou quatro a ser um só, dessa forma: há-muito-não-escrevo.).
Como já havia dito, é difícil procurar por algo que não se encontra. Como eu, por exemplo, que há-muito-não-escrevo (confesso que na hora de escrevê-las quase esqueci os últimos dois hífens.Vês o quão difícil é encontrar a própria alma? Pois não me acostumo nem com minha própria escrita que, já disse, é a minha forma de encontrá-la. Se não se entende a forma como se procura, como se procura? É, já disse que é difícil. Na verdade, não se procura (não tome essa última informação como verdade, pois nem estou fazendo aquilo que disse, pois estou escrevendo e, dessa forma, procurando. Ainda não disse que a mente também é complicada? Agora já são duas coisas: alma e razão)).
É engraçado como escrevo por associações. Assim como dois e dois são quatro. Mas também podem ser vinte e dois. Ou então, como disse acima (no exemplo da palavra há-muito-não-escrevo (não esqueci os hífens dessa vez)), quatro se tornou um, então, dois e dois também podem ser um. Já agora apresentei mais três verdades. Não acredite em nenhuma delas. Pretensão minha criar três verdades assim em um único parágrafo, uma vez que há-muito-não-escrevo. Há-muito. Aliás, aproveito pra esclarecer que a noção de muito pra mim pode não ser noção de muito pra você. Portanto, não tome esse quarta possibilidade de verdade como tal. É fato que há-muito-não-escrevo, pois não minto. Mas que é esse muito? Não sei. Me diga você.
Agora me deu medo, pois vi que há bastante coisa escrita nisso que era pra ser três versos. O que quero dizer é que não sei como vou terminar isso. Bem, pelo menos é o que eu acho que quero dizer. Não, não é isso. Nunca é. Nunca se diz o que se quer dizer. Por exemplo, agora, eu não estou conseguindo dizer algo que quero dizer (que é a mesma coisa que imaginava poder dizer nos tais três versos).
Desculpe, a mente fugiu. Cortei o pensamento anterior. (Ah!), a mente também tem isso. Além de ser complicada, ela foge também. Aliás, ela é complicada também porque foge. É um dos motivos. São muitos. E esse é um de todos esses muitos. Um (acho que você entendeu, não? Uma vez que já disse que quatro se fez um (estou prestes a transformar quatro se fez um em quatro-se-fez-um) também posso dizer que um se faz quatro. Pelo menos eu acho que posso, já que foi eu quem inventou isso (não, eu não posso. Eu só inventei, mas não é meu. Mas vou fingir que posso). Então, posso dizer que um motivo se constitui em quatro motivos. Diferentes, é claro. Na verdade, espero que sejam diferentes. Não, não espero)
De mim não espero nada. Não se pode esperar algo de algo que não se conhece. Na verdade, nem se quer conhecer. Pois não se escreve há muito, não se busca, foge-se. Aniquila-se na ânsia de encontrar-se. Ou não encontrar-se. Pois não se escreve há muito, não se busca, foge-se.

31 julho 2008

Intrigas me cercam.
Seria só desconfiança ou desatenção?

08 julho 2008

Tem um sol lá fora.
Tem uma parede amarela lá fora.
Então, têm dois sóis lá fora.
Três, se eu contar com o que carrego dentro de mim.
Esse, vai onde vou.
Escrevo um páragrafo.
Tomo um suco
Mais um parágrafo.
Capítulo de novela
Outro par..... (já tá chato de repetir isso)
Eia! Por que num vem tudo de uma vez?
As palavras e as letras são movidas a manivela?
Não, tudo é devagar porque antes de toda palavra vem um "Com licença?"
E nem sempre permitimos que elas saiam de nossa boca, transcendam os nossos dedos
Aí engarrafou tudo! (a Paz morreu e a Discórdia começou a gritar)

05 julho 2008

Prefácio

Uma, duas, três pessoas. Mais que isso, um grupo. Uma turma. O coletivo.
Pensamentos coletivos, relações interpessoais, fragmentos de idéia, espíritos que vagueiam pelo sensível: é assim que somos.
É assim não por uma força externa, um impulso consciente, um delírio eloqüente.
É um bem-querer sem saber. A força que une as partes, que faz grande o pequeno, preenche o vão, é centrífuga. Vem de dentro e sai. Pra fora. Pra longe. Ao infinito.
E foi assim, com ingenuidade, inocência, cuidado e respeito que as partes-que-não-tinham se tornaram as partes-que-se-tinham. Sem intenções.
É do particular ao geral. Até que tornou-se uno, sólido, um cristal. Colorido e transparente. De pequenos brilhos, incertos e errantes fragmentos do espírito coletivo, nasceu uma galáxia viva e sempiterna.

27 junho 2008

Hoje, se me chamarem, diga que não estou
O céu me chama e agora não vejo ninguém mais importante que ele
O sol se põe e estende seu véu

Me interrompem (eu pedi pra que não fizessem isso)

Logo volto minha atenção à paleta celeste

E por que me interrompem de novo? Ninguém me obedece?
(não, a vida não nos abedece)

Mas fui recompensado
Temos um laranja-o-mais-forte
Um lilás-indo-pro-roxo
Um anil-simples-como-toda-manhã
O espetáculo me faz passivo
Não preciso mais lhe dar atenção
(e agora temos um laranja-o-mais-forte-ainda)
Não mais parte de mim
Sou quase predestinado à cor
E sem ela não sou
(o laranja tornou-se o laranja-o-mais-forte-ainda-que-jamais-fora)

22 junho 2008

O Desessenciado

Um dia o banco fora verde.
Antes de deixar de banco para ser depositário.
Em seu verde repousaram lágrimas e sorrisos
Ficções, interlúdios e verossimilhanças.
Também os amantes o usaram
Assim como os odiantes.
Nessa história toda, roubaram-lha a cor.
Hoje ele é verde.
Verde-água-insípido-inododro-incolor.

20 junho 2008

Então ele se virou e disse:

-Um suco de tomate, por favor.

essa é a vitória! é a opção!
se sentiu como um homem a escolher entre dois amores: tomate e melancia.
era complicado. Fazemos escolhas sem saber o porquê nem como nem onde vai dar isso tudo
No momento em que ele pediu um suco ao garçom e foi questionado sobre o sabor desejado... Meu Deus!
Naquele momento tudo se desesquematizou. Escolher um sabor entre tantos.
"apenas um... apenas um... apenas um..."
isso ecoava em sua mente... era uma perturbação, ora.
ele tinha cinco sabores a sua frente: limão, fruta-do-conde, laranja, tomate e melancia.
Limão ele detestava. quando adolescente, adquirira uma gastrite e o médico lhe receitou suco de dois limões, puro, duas vezes ao dia, por duas semanas.
Resultado: úlceras e trauma-de-suco-de-limão.
Fruta-do-conde.... O que seria isso? optou por não escolher essa opção
Um suco de laranja faria em casa...
Sobrou-lhe Melancia e tomate. E então a dúvida se fez presente. E não veio sozinha. Trouxe a discórdia, a falsidade e a mentira.
Ele sentiu como se Pandora tivesse acabado de abrir sua caixa bem ali.
Cada fruta se exaltava sobre a outra.
O tomate dissertava sobre suas propriedades contra o câncer, seu licopeno, suas vitaminas e seu vermelho bonitinho.
A melancia falava da quantidade de água que possuia em si, do pouco uso de agrotóxicos e de seu verde bonitinho e degradé.
Aí tudo clareou, e então ele escolheu.

-Um suco de tomate, por favor.
-Odeio estrangeirismos.
-"Dregradé". Onde já se viu isso?

10 maio 2008

Não consigo. Tentei mas não consigo. Os pensamentos vêm numa velocidade incrível e eu não sou capaz de abarcá-los todos. Pense num mar bravio. Me sinto dentro dele. São ventos de todos os lados, as ondas crescem cada vez mais. Os peixes olham pra mim e balançam as barbatanas mais rapidamente pra que a água se faça ainda mais agitada. As ondas são meus pensamentos. É como se eu estivesse dentro do mim e todas elas viessem em minha direção. Não há como desviar delas pois se estendem por toda a orla e me encurralam. Só há uma opção: sair do mar.

Isso eu não faço.

Eu tento desviar mas não há possibilidade. Se eu mergulho, as águas me atingirão do mesmo jeito. Só que meus olhos estarão fechados, e eu perderei a beleza mansa após o choque. Se eu pulo (e elas não parecem ser pequenas a ponto de me deixar pulá-las) elas me atingirão novamente pois cairei sobre as suas águas já passadas, acumuladas por tantas milhas. Só que, diferentemente do primeiro caso, o encontro jaz morto. E não há mansidão. Apenas ilusão. Decido por enfrentá-las. Cara a cara. De peito aberto, mesmo que doa. Há um receio incontido, mas acho que é a decisão mais correta, pois se pode fugir dos próprios pensamentos?

Pra se ter uma idéia de como são numerosas e diversas, nesse momento me vêm três ondas que lembram de coisas diferentes e produzirão calmaria igualmente diferente. Lembro de Hegel. Lembro de uma calça com estampa xadrez verde. Lembro também que existe o número sete.

São muitas ondas e os ventos sopram mais fortes. Não me dão trégua. Parecem gostar de me ver quase afogado em mim mesmo. Tudo vem à tona.

Já estou num momento em que a bravura das águas atinge o fundo do oceano e remove as areias e algas, antes, solenes. Operísticas. Imagens são evocadas, palavras em gritos, rudezas da dor.

Coragem não há mais. Não posso lutar contra tantas forças. Já não sou mais solidário comigo mesmo. Quanto mais me afogo mais quero afogar-me. Há um certo masoquismo e, por que não?, um certo martírio em me fazer maior que mim.

É tudo. É tudo que vem e dança na minha frente. Eu me apresento. Me vejo como uma marionete, um ventríloquo sentado em seu próprio colo. É uma confluência de tudo se querer fazer, de se querer chocar com todas as ondas. Querer que elas se intensifiquem, e que a brisa em furacão se transforme. É um gosto salgado em minha boca, pois a água já alcança certa altura , mas me mantenho tão denso que já não posso afogar-me.

Já não tenho mais direção e nem sentindo a oferecer-me.

Já sigo sem saber pra onde nem porquê. Já passo pelas flores e contemplo sua beleza mesmo que elas estejam mortas e tórridas pelo calor. Já aprecio o canto dos pássaros mais negros e graves como se alcançassem o acorde mais agudo. Já olho pros ursos, pelados, e me encanto com o brilho de seu pêlo macio e suave.

Já canto desafinando para afinar.

Já como pensando em regurgitar. Já me comungo pensando no embrulho que causarei ao meu estômago.

E eles continuam a chegar. São como girassóis que não se esquecem de se prostrar à luz um só minuto. Eles me olham e eu penso que devo transformá-los em cinética, em movimento, em ação. Devo dar-lhes uma função que não me torturar. Penso e...(!)

Acabou.

Fiz aquilo que não podia mais fazer.

Devo parar de fazê-lo. Devo inanimar-me pois a corrente da vida já não me é confortável. Devo anestesiar-me antes de anestesiá-la. Devo torturar-me antes de causar o outono. Ou, pior, antes de invernar a todos. Devo esfriar-me só. Congelar-me só

Cristalizar esse mar bravio o qual se mostra a única solução. Terminar-me, implodir-me, porque se me estouro faço-me muito alarde. Devo tentar parar com uma obsessão. Devo tentar parar com todas as obsessões. Ou devo obcecar-me?

Não devo mais procurar respostas. Não devo mais buscá-las pois só me fazem trazer novas duvidas. Só me fazem despir-me e envergonhar-me. Só me fazem mergulhar nessa água, agora escura, manchada pelas minhas vergonhas, pela lama revirada das suas profundezas. Só me fazem não afogar-me, como antes, mas detestar-me. Afogava-me porque amava-me e confortava-me. Agora prefiro as praias às suas águas imundas e asquerosas. Prefiro fugir de mim mesmo a olhar pros meus mais frondosos horrores. A areia também não é mais branca. A areia deixara de ser areia e passou a ser lama. Posteriormente, pântano. É agora movediça. Já me puxa para si me fazendo doer-me. Já me arranha com seus grãos tentando tragar-me. Já me macula com seu esforço. Já me tenta a sufocar-me.

E então, meu coração se rasga rarefeito e sangra.

Olho.

Olho.

Olho.

E vejo. Vejo o vermelho. Vejo o rubro. Vejo uma cor/dor. A cor da dor e a dor da cor. Enxergo as possibilidades de glória. Decido por não mais cristalizar-me. Decido, pois por liquefazer-me e se possível por sublimar-me. Decido por tornar-me etéreo e naftalínico todo eu. Decido por espaçar-me, por alargar-me. Posso agora explodir como um balão, inflado de si.

O processo, mais uma vez, é de dor. E de dor.

Desejo por transformar toda a areia, movediça e contaminada. Desejo voltar ao seu estado mais que natural. Desejo que não sejas mais um simples branco como era antes, mas um branco mais titânico possível. Desejo por tocar-me sem medo de repúdio.

Decido por limpar, grão por grão, minhas lembranças. Decido ver-me inocente, assim, como um louco. Decido por orgulhar-me de mim.

Decido guerrear comigo, sem armaduras ou armas. Somente com olhares. Somente com sinceridade. Dispo-me, até.

No meio da caminhada em direção à luta o medo me toma e decido voltar.

Poeira.

Decido continuar. Tropeço e olho pra trás.

Poeira.

Levanto e sigo. Hesito uma última vez: me volto.

Poeira.

Já não há mais volta. A partir do momento que se decide por enfrentar-se, decide-se por não prostrar-se. Decide por seguir até o fim.

Olho-me. Vejo-me... E descubro não ser quem era. Descubro que destruído é o mural de minhas certezas. Descubro por arruinado os meus favores. Descubro não solidário o meu dever. Procuro, errante, por um vestígio de mim. Arrasto-me tropegamente, em saber de mim. Descubro-me. Retiro de sobre mim o lençol que me engana. Limpo-me de ilusões passadas. Rasgo o meu retrato, que por anos pintei detalhadamente, e decido por começar outro.

Mas será este abstrato. Não procuro por definir-me.

Começo a colori-lo com a angústia de ter derrubado às pressas o meu forte.

17 dezembro 2007

Do dizer

Agora fale-me


Fale-me de sonhos
Fale-me de Chico
E Virgílio


Não apenas fale-me,
Mas diga-me
Porque, sim, há uma grande
[diferença entre o dizer e o falar


O falar não exige outro
[esforço senão o físico
Apenas se articulam uma série de conexões nervosas
[com o objetivo de mover a língua e produzir sons


Já o dizer
(Ah! O dizer...)
O dizer exige entrega
O dizer exige movimento e concentração


Repare nos olhos de uma mulher
[quando ela diz: "Diga que me ama."
Isso pede mais que simples palavras
Isso pede atenção


Isso, de dizer, pede mobilização
Tanto dos músculos quanto de todas as leis físicas
Dizer é musicar as palavras
É dar-lhes melodia, ritmo, volume


Aquele que diz se sente cômodo e aliviado
Porque se absteve mais uma vez do falar


Falar, apenas, é coisa de sexta à noite
Dizer, somente, é coisa de segunda-feira em horário de almoço
Onde delatam-se histórias do fim-de-semana passado
Histórias, aliás, divertidíssimas , mas com um certo
[toque de seriedade, afinal, estamos numa segunda-feira

Para sintetizar toda esta prosa
Apenas uma coisa te digo:

Fale somente o dispensável!

16 novembro 2007

E, de repente, volto!

Volto porque o mundo não deixou de girar
Volto porque a roda é viva
[Porque tenho saudades de mim
[Porque é gostoso conhecer-se
[Porque escrever é um vício do qual ainda não me libertei

Volto porque "Penso,
Volto porque logo existo"

Volto porque respiro sonhos
[Porque não vejo em preto e branco
[Porque sinto o odor da alegria
[Porque ouço o chamado das letras
[Porque tateio o futuro
[Porque sinto o gosto da felicidade

Volto porque dei a volta
Volto porque odeio a Valda (!)
Volto porque vejo o vento
Volto porque veto o "Vendo!"


E então, de repente, eu volto!
E não mais que de repente...

17 dezembro 2006

Devaneios

Chegou em casa cansado e foi direto à cozinha. Pegou uma garrafa d'água e tomou alguns goles. Naquela época do ano fazia um grande calor. Da cozinha foi ao banheiro e tomou seu banho. E do banheiro foi até a varanda e deitou na rede pra relaxar.

Agora sim!

Tinha passado duas horas no trânsito sonhando em chegar em casa e deitar na rede. E deitou. Enquanto a rede balançava pra lá e pra cá, ele fazia um balanço do próprio dia. Tinha tomado decisões importantes, tratado de assuntos vitais e será que tudo dará certo? Mas deixemos isso e vamos nos concentrar na rede. E a rede continuava pra lá e pra cá.

Mas algo estranho soou. Um iiiii-ôôôô. Iiiii-ôôôô? Sim, um iiiii-ôôôô. O atrito dos ganchos da rede provocara um iiiii-ôôôô. Mas deixemos isso também. Vamos pensar no final de semana que vem pela frente. Ele vai viajar? Se divertir com os pais? Com os amigos? Com o iiiii-ôôôô?

Novamente iiii-ôôôô? Sim, esse ruido não parava. Quando a rede ia fazia iiii. Quando voltava fazia ôôôô. Na mesma hora ele perguntou:

- Vô, tem graxa aí?

Tinha graxa. Ele pegou a graxa e passou nos ganchos. E o ruídou cessou.

Acho que agora podemos voltar ao momento relaxante sem o iiii-ôôôô. Então vamos pensar nas festas que estão por vir. As pessoas virão, trocarão presentes, se confraternizarão. E até deitarão na rede da varanda. Sem o iiii-ôôôô, é claro! Sem o iiii-ôôôô?

-Sem o iiii-ôôôô?

E a rede deixara de ser rede....

18 novembro 2006

Visitar-me

Porque faço sem saber?
Porque não saber o que fazer?

Um grito
Um grito abafado
[No escuro
Um grito de inconformismo

O não grito

Eu sou o grito
A personificação sonora
A prosopopéia encarnada

Eu me explodo
Eu me estouro
Mas ninguém me ouve

Eu danço
Eu pulo na sua frente
Mas ninguém me vê
Ninguém me assite
Inclusive eu

Porque não sei quem sou
Sou um estranho pra mim
E só querendo me encontrar

E me visitar
Tomar café comigo
E conversar comigo
Pegar meu telefone
E sair junto comigo
E me conhecer
E casar comigo
E me mudar
Pra dentro de mim

E só assim...
Me habitar

04 novembro 2006

Vejo o Rio em Janeiro

Falam da Cidade Maravilhosa
A casa-cidade, albergue-escola
De um grande povo que a devora

Povo que vive e contempla
O sol que a cada manhã nasce
Como o renovar da esperança
Nascimento de perspectivas

Vida, louca vida
Da cidade que Cazuza escolheu
Cidade que Vinícius viveu
E João, aquele do Rio, retratou

Cidade-morro das diferenças
Liquidificador de idéias
Onde bate a bola o bate-bola
Quando chega Fevereiro

Cidade-sonho tropicana
Tela do pintor,
Inspiração do poeta

Samba-canção,
Choro e maxixe,
Bossa de um certo Tom

29 outubro 2006

Agradecendo, somente...

A lua sorri pra mim
E eu retribuo esse
Lácteo e leve cumprimento
Agradecendo pela companhia

Agradeço pelos amigos -- irmãos
Agradeço pela família -- unidade
Agradeço pela vida

Obrigado pelos belos dias
Pela sempiterna presença
Pela felicidade que cresce

Agradeço à Estrela da manhã
Por refletires sua luz e nós
Através do brilhante astro noturno

Obrigado pelo calor
Que nos aquece
pela alegria
Que nos aviva

Obrigado ao Sol -- Deus!

22 outubro 2006

À uma Marquesa

A Marquesa que me refiro
É aquela que me enche com sua nobreza
Que me aquece quando está frio
E me impressiona com sua beleza

Uma menina encantada
Com um singelo toque de fada
E sensibilidade e leveza
De uma bela sereia

Uma mulher que me aguarda
Numa linda rua de Oz
Esperando a nossa Temporada
Sentada à beira da foz

É a bailarina-poeta
Aquela que tira uma sesta
E sonha com uma linda seresta
Uma música que a desperta

Uma artista de circo
Artista que me dá abrigo
E tem um belo sorriso
Que me faz perder o juízo

É uma linda criança
Que enche de esperança
Meu pobre coração plebeu
Quando me traz um poema seu

Essa atriz-compositora
Que um dia será autora
De um belo conto sobre o amor
De uma nobre e um pobre pastor

Uma pequena contente
A quem dou esse humilde presente
Mas, sinceramente,
Quisera eu aí estar presente!

Congratulo à ela
De longe, a menina mais bela
Que completa 17 primaveras
E um dia, pintarei numa tela

Parabéns a você
Esse mais lindo ser
A quem muito quero ver
E sempre ao meu lado ter

17 outubro 2006

Entende?

Vejo a vida com valor e ambição
Traço o risco com sabor de uma canção
Toco o sino e tomo açúcar com limão
Troco o vidro e faço rima "sem noção"